O INSTITUTO PIETISTA DE CULTURA (IPC) é um Instituto Teológico mantido pela IBRM (Igreja Batista Renovada Moriá). A sua missão é promover o ensino do pensamento cristão dentro de uma perspectiva interdisciplinar, combinando o aspecto acadêmico da teologia com o aspecto devocional da fé.
O IPC se propõe a oferecer cursos livres de teologia em nível médio e superior. Além disso, pretende oferecer cursos de extensão em temas teológicos específicos de caráter apologético e transdisciplinar. Os referidos cursos de extensão proporcionarão suporte aos Seminários e Faculdades Teológicas existentes, oferecendo a oportunidade de complementação e especialização dos estudos.
O IPC também oferecerá Cursos de Pós-Graduação em convênio com Instituições de Ensino Superior já credenciadas pelo MEC.
O corpo docente do IPC é formado por professores graduados e pós-graduados (especialização, mestrado, doutorado) em Universidades credenciadas pelo MEC e pela CAPES. Alguns de nossos professores também são professores de Universidades Federais e Estaduais, tendo ampla experiência em cargos de coordenação, em composição de currículos universitários e em assessoria de autorização e reconhecimento de cursos de graduação junto ao MEC.
Os professores do IPC têm também ampla produção cultural através da publicação de livros e de artigos em revistas e jornais especializados. O Jornal TOCHA DA VERDADE é um periódico teológico vinculado ao IPC. As obras da Editora Moriá também dão especial atenção aos temas de aprofundamento do IPC.
POR QUE É PIETISTA?
No século XVII, após a morte de Martinho Lutero, as igrejas protestantes na Alemanha se entregaram a disputas teológicas, negligenciando o aspecto experimental e prático da fé. Nesse instante, Filipe Jacob Spener apareceu em cena através de seu livro “Desejos de Piedade” (1675). Ele protestava contra a crença popular de que a pessoa podia se considerar cristã pelo simples batismo infantil. Contra isso, ele interpunha a exigência do novo nascimento como uma experiência pessoal. Spener não se opôs a teologia, mas insistiu na importância dos estudos bíblicos acontecerem em um contexto de fervor espiritual. Ele enfatizou a fé viva contra a ortodoxia morta.
Spener introduziu um sistema de grupos de estudos bíblico nos lares e ressaltou o sacerdócio universal dos crentes. Os seus “colégios de piedade” inspiraram as “sociedades metodistas” na Inglaterra. O pietismo alemão correspondeu ao evangelicalismo anglo-saxão.
O convertido mais importante de Spener foi A. H. Francke (1663-1727), outro grande líder do movimento pietista antigo. Francke fundou uma nova universidade dentro da orientação pietista.
A influência do pietismo foi poderosa. O afilhado de Spener, Conde Zinzendorf, importante líder dos irmãos morávios, trouxe grande impulso ao movimento missionário evangélico. Através dos irmãos Morávios, John Wesley se converteu na Inglaterra, e, pelo seu ministério, a Inglaterra conheceu o maior avivamento espiritual de sua história.
O IPC é pietista porque ressalta uma fé viva, um cristianismo experimental, o fervor evangélico e missionário. Como M. Lloyd-Jones, compreendemos a pregação e o ensino como “razão eloqüente” e “lógica em chamas”!
POR QUE “DE CULTURA”?
Por que visa a uma formação interdisciplinar que capacite os alunos a argumentarem a favor da fé cristã em um ambiente acadêmico secular. A nossa preocupação é com o equilíbrio entre “identidade e relevância”. Pretendemos argumentar nos “jogos de linguagem” dos acadêmicos, mas sem fazer concessões no conteúdo bíblico de nossa fé.
Oferecemos formação teológica capaz de não ser abalada pelas modernas críticas do pensamento secularizado.
Para uma reinterpretação da história, Jacques Le Goff, em
abordagem sobre a relação da história em construção e da sua interpretação e
reinterpretação, afirma que os eventos pretéritos construíram uma determinada
ideologia capaz de ser compreendida enquanto tal, mas, que podem também, sob
novas perspectivas, serem reinterpretadas. De acordo com sua teoria, o futuro
sempre reserva novas descobertas e interpretações, seja pelo aspecto
arqueológico que está na iminência de encontrar algo capaz de resgatar o passado
para reinterpretá-lo, seja através de novas leituras que se faz do que foi
encontrado. Este modo de pensar conserva o fato do passado sempre presente,
elevando-o a um patamar vinculado também ao futuro. As questões do passado
funcionaram como degraus pelos quais a humanidade ascendeu para um plano
superior, mas que, apesar da elevação e enquanto pesquisadores, devemos,
constantemente, revisitar seu contexto pregresso para uma compreensão mais
apurada dos fenômenos sociais que a atingem no presente. Le Goff assevera:
...O passado é
uma construção e uma reinterpretação constante e tem um futuro que é parte
integrante e significativa da história. Isto é verdadeiro em dois sentidos.
Primeiro, porque o progresso dos métodos e das técnicas permite pensar que uma
parte importante dos documentos do passado esteja ainda por se descobrir. Parte
material: a arqueologia decorre sem cessar dos monumentos desconhecidos do
passado; os arquivos do passado continuam incessantemente a enriquecer-se.
Novas leituras de documentos, frutos de um presente que nascerá no futuro,
devem também assegurar ao passado uma sobrevivência — ou melhor, uma vida —,
que deixa de ser “definitivamente passado”. À relação essencial
presente-passado devemos, pois, acrescentar o horizonte do futuro. Ainda aqui
os sentidos são múltiplos. As teologias da história subordinaram-na a um
objetivo definido como o seu fim, o seu cumprimento e a sua revelação. Isto é
verdadeiro na história cristã, absorvida pela escatologia; mas também o é no
materialismo histórico (em sua versão ideológica), que se baseia numa ciência
do passado, um desejo de futuro não dependente apenas da fusão de uma análise
científica da história passada e de uma prática revolucionária, esclarecida por
essa análise. (Le Goff, 25)
Os conceitos de Le Goff são interessantes, contudo, sua
relatividade está aparente. No caso da história e teologia, percebemos que
existe uma multiplicidade de credos nesta “teologia”, pois este seu conceito se
refere aos desdobramentos do Cristianismo, bem como de toda manifestação divina
nas diversas culturas existentes através de sua história local ou geral. Esta
concepção acadêmica tem transformado Deus e o seu Cristianismo em um objeto de
laboratório observado por “quem está acima do movimento”. Para sermos coerentes
em nossa linguagem, Deus é o absoluto, tudo pode ser explicado através dele. O
Cristianismo ganha força com um movimento singular em razão de sua relação
direta com o sagrado ou com a Divindade. Sem ele, o Cristianismo não passa de
mais um desdobramento para relações entre indivíduos.
No que diz respeito à História dos movimentos é uma
argumentação coerente. Ao se referir a Teologia, um equívoco. A Teologia está
cristalizada, ou melhor, fundamentada em alicerce inalterável, não permitindo uma
reinterpretação. Devemos entender que a Palavra Divina é objetiva, caminhando
em única direção dada sua univocidade. Tem uma base fundamental na qual indica
um só alvo, não comportando ambiguidades. Se existisse, acreditaríamos num Deus
confuso. A questão dissonante, no entanto, é a interpretação múltipla de cada
grupo religioso. Essa tentativa de puxar a interpretação para a própria vertente
provoca pobreza do conteúdo e menosprezo pelo Sagrado. A teologia cristã é
inalterável porque Deus é imutável, atributo da Divindade que impossibilita
qualquer reinterpretação do que foi e do que será, registrados nas Escrituras.
A imutabilidade de Deus, no entanto, conflita com a dinâmica social. Razão pela
qual muitos teóricos tentam lançar novas interpretações para a doutrinação
cristã. A sociedade, como dizem as Escrituras, é como um mar agitado. Está em
constante movimentação. Essas movimentações atingem e alteram de tempos em
tempos todas as ordens e todos os segmentos encontrados nela. Então, a reflexão
que se faz dessa conjuntura é: se a maioria dos status sociais sofrem modificações e reinvenções devido às
constantes tendências porque a Teologia não poderia sofrer essas ávidas
influências de mudanças? A resposta para essa questão, na visão mundanizante, é difícil de ser respondida, pois há resistência em aceitar o modo atemporal da
ética e moral divina. Não se aceita que a maneira de ser do passado deverá ser
a mesma do presente, alcançando também a larga medida de tempo do futuro. A
teologia está circunscrita ao ser divino, obedecendo-lhe na maneira de se
apresentar ao homem. Em si mesma, continua selada, impedindo as incrementações
decorrentes de novos valores que o homem crie para modifica-la em exercício
coercitivo.
Além disso, deveremos entender que a Teologia tem como
base a doutrina encontrada no primitivismo cristão, categoria elencada para
identificar o primeiro grupo de cristãos cuja devoção era estrita aos
ensinamentos de Cristo, dos apóstolos e dos Profetas. Os escritos sempre foram considerados
o manual de regra de fé e prática e deverão ser apregoados para uma concepção
uniforme de Deus, de suas doutrinas e de sua moral para um comportamento
espiritual relacionado à primeira Igreja de Atos dos Apóstolos a fim de serem
transmitidos para as gerações posteriores os pilares da fé com o objetivo de que
caminhem uníssonos, apesar do extenso espaço temporal, porquanto se referem a
um mesmo povo. Essa compreensão garante a conservação de todos os valores
contidos no imenso conjunto escriturístico, evidenciando os efeitos da Teologia
que a Igreja Cristã ensina.
Por Heládio Santos
Bacharel em Ciências Sociais
Especialista em Teorias da
Comunicação e em Teologia Histórica e Dogmática
Referências
Le Goff, Jacques. História e memória. Campinas, SP:
Editora Unicamp, 2005.
Como todo
pensamento tem seu fundamento em reflexões direcionadas para questões da vida,
a doutrina do Übermensch (“além-do-homem” ou super-homem) de Nietzsche não foi diferente, segue um caminho para
fornecer uma solução para o problema do marasmo humano. Intencionado em despertar
o conceito de uma nova metafísica numa sociedade estagnada no niilismo, ousou
demonstrar a potencialidade do ser humano em superar a si mesmo, porém, não
mais se preocupando com valores cristalizados, estabelecidos em postes monumentais
cujas “obras notáveis” dos grandes vultos da ciência prendiam o indivíduo numa
formalidade hermética. Ele foi além, apresentou de maneira acessível qual
direção tomar; por mais que isto não tivesse sido reconhecido em sua época,
atendeu ao seu desejo de explanar o que estava latente aos sujeitos, todavia,
algo que ninguém ousava comentar, pois era assunto de teor intempestivo.
Um dos
conceitos de sua teoria, a prostração humana, pode ser verificado nas mais
diversas situações da vida. Para tanto, enumerarmos duas situações para estabelecermos
uma relação com o pensamento Nietzschiano: no caso de um monge, não seria
difícil verificarmos um comportamento de negação da vida mundana. Ademais, o
mesmo se apega a uma conduta de obediência no serviço divino numa tentativa de
ser aceito pelo Deus Todo-Poderoso. Semelhantemente, Raymond Aron, em reflexão
quanto ao pensamento weberiano na questão da Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, informa que a
prosperidade seria a comprovação da aceitação divina no que dizia respeito à
salvação eterna para os calvinistas. Ambos os pensamentos, o do monge e do
protestante (segundo Aron), prendem-se a uma situação de renúncia terrena dos
devaneios, evocando uma vida supra terrena onde a Deidade ordena a vida regrada
para fins de deleites eternos. Isto, segundo Nietzsche, é sufocar para
aniquilar com aquele bem dissimulado no homem. É deter a natureza pela qual o
ser humano pode viver, mas se encontra “amedrontado”, impedido pela consciência
de rumar contra a corrente.
O objetivo de Nietzsche
ter criado Zaratustra, que é personagem chave nesta sua investida, evidencia
sua argumentação confrontante. O mesmo simboliza “a auto superação da
moralidade”. Foi ele quem criou a moral, “o mais fatal dos erros”, por isso,
deverá reconhecê-la, constatando seus efeitos, e assim superá-la. Desta
maneira, Zaratustra será o exemplo motivador da doutrina do Além-do-Homem de
onde aqueles que buscam percorrer a jornada entre o animal e o super-homem deverão estar fundamentados.
A motivação decorre da anunciação de que o homem é alguém a
ser superado, visto que sua situação não exalava um entendimento da
transitoriedade da vida, tendo como consequência à falta da consumação de seus
desejos. Desta feita, surge a necessidade de desconsiderar as esperanças
supraterrenas e admitir a morte de Deus,
razão pela qual se poderia praticar tudo aquilo que se concentra no âmago do
sujeito. “‘Deus está morto!’ Foi sua mais célebre
proclamação. Como consequência, os homens deveriam
buscar valores que transcendessem a moral convencional divulgada pelo
cristianismo; um retorno ‘à ordem de castas, à
ordem hierárquica [...] para a conservação da sociedade, para que sejam
possíveis tipos mais elevados, tipos superiores - a desigualdade dos direitos é
a condição necessária para que haja direitos’. Concluiu dizendo: ‘Quais são aqueles que mais odeio no meio da canalha dos nossos
dias? A canalha socialista, os apóstolos [...] mirando o instinto, o prazer, o
contentamento do trabalhador no seu pequeno mundo - que o tornam invejoso, que
lhe ensinam a vingança [...] a injustiça nunca reside na desigualdade dos
direitos, ela está na reivindicação de direitos iguais’.”[1]Para alcançar tamanha façanha, é preciso aprender a
declinar ou perecer até chegar ao grande desprezo, “onde a felicidade, razão,
piedade, justiça e valor presentes tornam-se repulsivos para nós”. Contudo, é
na busca de uma doutrina que possa restituir a “inocência” do “vir-a-ser” que
Zaratustra libertará o homem.
É neste
momento, além de muitos outros, que podemos vislumbrar algo comum no pensamento
nietzschiano, o pensamento cristão ao contrário, uma remodelação humana para
desconstrução do Cristianismo. Para o Cristianismo, liberdade significa sair de
uma condição tipicamente pecaminosa (prática dos apetites carnais e suas
concupiscências) para adentrar numa vida nova com valores eternos e imutáveis
direcionada para obediência pragmática[2] em
Deus. Para o Cristianismo, liberdade é abandono de tudo aquilo que é contrário
aos mandamentos divinos, enquanto que para Nietzsche liberdade é praticar tudo
quanto se tem vontade, superando a moralidade estabelecida. Sendo assim, o
homem é o meio, é a corda, é o canal entre o animal e o super-homem. Seu gênio tem que superar o último homem numa ação
criadora; será através desta transformação que o homem alcançará a situação de Übermensch.
Como Zaratustra ensinou, sua vontade deve determinar sua criação, pois sua
vontade é poder. O problema maior seria constatar sempre o eterno retorno do
mesmo, conceituado através de uma concepção circular do tempo, levando-o a
declarar que tudo é em vão.
Ora, se tudo é vão, a concepção nietzschiana
é um contrassenso! Como pode um homem querer fazer tudo quanto lhe apetece e no
final, depois de saciar/estimular sua fome e sede egocêntrica, dizer que tudo é
vão? Significa dizer que existe no seu íntimo um constante anseio de saciedade,
pois as vicissitudes mundanas não foram capazes de satisfazê-la. Quanto mais se
buscou tais satisfações mais se percebeu que elas estavam sempre distantes e se
distanciando ainda mais, provocando um desespero pela consumação, por exemplo,
do desejo carnal (numa linguagem bíblica). Salomão, após vivenciar práticas
contrárias aos mandamentos divinos, apresentou este problema quando relatou: “Porque todos os seus dias são dores,
e a sua ocupação é aflição”(Ec 2:23). Vê-se seu profundo desencantamento com o
mundo, apesar de satisfazer os desejos de seu coração, extrapolando, inclusive,
pelos caprichos das mulheres pagãs que o cercavam. Desta
forma, a associação que faz do homem a um animal está vinculada a um conceito
depreciativo porque na vida não consegue produzir algo expressivo (dentro dos
seus conceitos de eliminação da Deidade). Este homem prefere se prender a uma rotina
descompromissada com a superação, limitando-se pela satisfação das necessidades
e reverenciando o imaginário.
Em Considerações
Intempestivas, Nietzsche demonstra uma sociedade altamente despercebida e
desinteressada na consumação de suas próprias vontades. A superficialidade e a
concepção de uma história sem profundidade, não gerando objetividade, introduz
a ideia de redução nos sujeitos que se vêem obrigados a submeterem-se às
instituições. Tal atitude demonstra uma condição interior de muito potencial do
sujeito, entretanto, subjugada ao mascaramento exterior de uma identidade que
não deveria ser dele. Por esta razão, tenta incutir a ideia da personalidade
forte, uma personalidade não submetida, uma necessária para subjugar o passado.
É a ideia do super-homem.
Jesus, no
Evangelho de João (4:13-14), propôs uma metáfora para uma mulher samaritana que
de certa forma havia passado por experiências semelhantes as teorizadas por
Nietzsche (rompeu com os paradigmas de sua época não cedendo ao forte preconceito
feminino, relacionando-se inúmeras vezes e pertencendo a uma comunidade mista
de judeus e pagãos). No caso, Jesus entendeu a ânsia daquela mulher e sua busca,
por isso ensinou sobre uma fonte que a obrigava sempre dela beber e de outra
que sacia a sede definitivamente. Essa ânsia é na verdade a busca pela
satisfação espiritual e não pela física, no entanto, em muitos casos, o ser
humano não consegue discernir bem sua condição e a confunde.
O gênero
humano está sujeito à condição desviante. Os primeiros anseios e suspiros pelo
pecado não são identificados como tal. A utilização do corpo para a prática
pecaminosa com esquecimento da existência de Deus é uma constante na vida do
homem natural. Todos são atiçados pela curiosidade do ato, não há quem diga não,
porquanto na primeira condição de consciência estamos vencidos pelo pecado. Quando
se pratica atos pecaminosos se acaba por estimular o vício, engodando-se na
malha pegajosa do pecado, tornando-se desprovido de Deus e vencido pelo pecado.
Por essa razão, Jesus ensinou a condição do homem
pecador voltando ao poço de pecado: “Quem beber desta água tornará a ter
sede...”. A repetição da pratica consiste na ânsia constante de querer algo que
o satisfaça, mas também a percepção de que o beber da fonte mundana nunca
satisfaz, obrigando o agente buscador sempre ao eterno retorno do mesmo. Nietzsche conhecia profundamente esses
ensinamentos do Salvador. No entanto, a pergunta é: se Nietzsche sabia, então,
por qual razão buscou fazer o contrário dos ensinamentos cristãos? A resposta
para a questão é a rebeldia motivada. Nietzsche provou do dom celeste. Sua
família era protestante, seus avôs eram pastores e ele era apelidado de o pastorzinho na idade infanto-juvenil
devido sua devoção a Deus. Quando teve os primeiros contatos com os “mestres”
do universo acadêmico do seu tempo, Schiller, Hölderlin, Byron e Schopenhauer
(ateu), se afastou do Cristianismo. Motivado muito pelo que acontece nas
universidades (uma coerção de alunos e professores para que os recém-admitidos
possam “superar” sua fase de convicções cristãs) não conseguiu conciliar a fé e
a razão. Essa situação gerou distanciamento, revolta e a negação da existência
de Deus. Permitiu a proposição de ensinos sem moral, esquecendo-se que a moral
é instrumento que conserva a sociedade e o bem estar social, mas acrescentou a
possibilidade do homem se desviar de Deus através de um devir oriundo da sua filosofia. Enquanto Nietzsche procurou
apresentar um sistema teórico complexo para superação dos valores cristãos,
demonstrando as possibilidades e impossibilidades do ser humano, criando um
modo de viver perigoso para o destino eterno do homem, fazendo com que esse
criasse um ciclo vicioso de condutas prejudiciais ao ser natural e espiritual
de si, a essência do Cristianismo, através das palavras do Cristo e dos
apóstolos, nos apresentam a proposição objetiva, acertada e verdadeira da vida.
Os teóricos tentam alcançar um patamar superior para atingir a equiparação
entre os sistemas, no entanto, só encontraram desilusão.
A proposta de Nietzsche fundou-se
no nascimento de uma nova ordem para sustentar a posteridade de um super-homem. Sua filosofia formaria o
homem que desponta para a vida sem intervenções da moral, principalmente a
moral cristã, mas deixaria fluir os interesses particulares de seu ser,
produzindo o que de fato o homem seria capaz de produzir, sem se incomodar com
fundamentos do passado cuja parametrização fornece à vida uma conduta regrada. Assim,
acreditava em um antropocentrismo puro sem interferências. Promovia sua teoria
baseada nos sentimentos latentes dos homens cuja moral estabelecida forçava uma
maneira ordenada de viver sem cumprir com pilares erguidos e tradicionais.
Censurou uma sociedade hipócrita que não tinha coragem de tirar a máscara, mas
que continuava ocultando aquilo que lhe interessava fazer.
A proposição de
que tudo é possível ao homem, porque querer é poder, é engano. Sempre existe
uma consequência para uma concepção como essa. Defender o poder ilimitado do
homem é ordenar a insanidade, pois o homem tem suas limitações e não é um super-homem. Antes que o leitor pense
nessa consequência como um ato de castigo de Deus, não o é, pois é simples
consequência dos atos anteriores do homem. Saiba o homem reconhecer a consequência
dos seus maus atos. Como está escrito: “Porque o que semeia na sua carne, da
carne ceifará a corrupção...” (Gálatas 6:8). O determinante na ação é a vontade
humana que é contrária à vontade divina. Há explicitamente a exaltação do homem
e implicitamente a ideia de tornar Deus um ser ridículo e desprezível. A consequente
é a corrupção que remete a ideia de morte sob os dois aspectos, a física,
devido ao dano provocado pela prática demasiada das paixões e dos anseios
hedonistas, e a espiritual cujo destino é eterno e irremediável. O próprio
Nietzsche vivenciou esta experiência no fim de sua vida em estado de demência:
“Depois de 1888, Nietzsche passou a escrever cartas estranhas. Um ano mais
tarde, em Turim, enfrentou o auge da crise; escrevia cartas ora assinando “Dioniso”,
ora o “Crucificado” e acabou sendo internado em Basiléia, onde foi
diagnosticada uma “paralisia progressiva”. Provavelmente de origem sifilítica,
a moléstia progrediu lentamente até a apatia e a agonia”.
Eis Nietzsche no final de sua vida...
Mas, Jesus Ressuscitou....
Por Heládio Santos
Bacharel em Ciências Sociais
Especialista em Teorias da Comunição e em
Teologia Histórica e Dogmática
[2] A tese
fundamental para o pragmatismo é que a
verdade de uma doutrina consiste no fato de que ela seja útil e propicie uma
espécie de êxito ou satisfação, de acordo com C.S. Peirce, W. James J. Dewey e
Friedrich J.C. Schiller. (de acordo com Dicionário Aurélio – Século XXI).
Cândido é um conto do filósofo Voltaire,
publicado em 1759, no qual nos é apresentado Cândido, o protagonista, como alguém
“privilegiado”: índole suave, juízo assaz reto e espírito muito simples, porém
que passa por agruras e severas adversidades em determinada fase de sua vida
após ser inserido num contexto sombrio, apesar de seu otimismo.
Morava num castelo considerado o
maior de todos, onde residia também sua paixão, a senhorita Cunegundes. Recebera
instrução em metafísico-teólogo-cosmolonigologia, como queira Voltaire, junto
ao mestre Pangloss (o cerne desta doutrina seria provar que não existia efeito
sem causa). Devido ao lapso de flertar com a senhorita Cunegundes foi expulso
daquele que “era o mais belo dos castelos”. Caminhou sem rumo até encontrar os
recrutadores prussianos. Foi para o exército e também para a batalha. Foi quando
testemunhou muitas desgraças, mas principalmente o desamor do gênero humano. Do
“paraíso” foi ao “inferno”. Vivenciou as superfluidades da vida no encanto das
aparências até chegar aos dissabores das muitas mortes presenciadas. Ele que
fora instruído na doutrina das causas e efeitos procurava uma razão para sua
situação. Buscava ele a verdade ou a ilusão?
Cândido consiste numa negação ao
sistema leibniziano, ou seja, é oposto ao otimismo na vida. Uma negação das
palavras de Pangloss: “...que as coisas não podem ser diferentes; pois, tudo
sendo feito para um fim, tudo é necessariamente para o melhor fim” (p. 4). E
qual a mensagem central da filosofia de Voltaire? O que está ruim pode ficar
ainda pior? Voltaire duvidava de Leibniz neste ponto, porque enquanto Leibniz
acreditava na justiça divina para regular a vida em sociedade, por exemplo, Voltaire,
após duras experiências e dissabores com as condutas impróprias dos homens, não
queria aceitar a possibilidade de as situações melhorarem. Via a realidade sem
expectativa de mudanças benéficas, mas pelo contrário, por mais que se tentasse
sair de situações degenerativas mais ocorrências apareciam para que o indivíduo
não pudesse se sobressair. E o anabatista do conto, o que representa?
Por entre seus dilemas surge Tiago,
o anabatista. Um indivíduo de caráter, honestidade e disposto a ajudar. Não sei
se Voltaire falava em tom de ironia ou de respeito sobre Tiago, o anabatista,
mas de uma forma ou de outra, destaca-se o valor moral daquela figura que em
meio ao enredo da história ajuda o desprezado e humilhado Cândido. Como ele
mesmo narra. Pelos vistos, Tiago, o anabatista, é um personagem de boa índole.
Apresentado como o diferente de todos os sujeitos participantes do enredo,
principalmente dos religiosos. Ao contrário dos outros que negaram ajuda ao
desalentado Cândido, Tiago foi o único que estendeu sua mão para ajudá-lo, e
posteriormente recebeu Pangloss com o mesmo propósito.
A ação do anabatista é citada a
semelhança do bom samaritano, descrita em Lucas 10:30-37. Sobre o ato abnegado
de Tiago, contrário ao religioso católico, Cândido afirmou: “Bem que mestre
Pangloss me dizia que tudo está o melhor possível neste mundo, pois sinto-me
infinitamente mais tocado por vossa extrema generosidade do que pela dureza
daquele senhor de casaco preto, e da senhora sua esposa”(p.14). Para aumentar o
respeito pelo anabatista, após ter encontrado seu mestre (Pangloss) mendigando
devido à invasão e destruição do castelo onde residia pelos búlgaros, viu-se
obrigado a pedir novamente amparo a Tiago. Tiago vendo a necessidade imediata
de Pangloss não hesitou em também ajudá-lo. Pangloss era, naquele momento, um
maltrapilho sujo e imundo, desprezado à própria sorte, faminto e portador de
uma DST (sífilis). Foi tratado a expensas de Tiago; foi curado parcialmente,
pois a doença lhe assaltou um olho e um ouvido, mas mesmo assim recebeu
trabalho do anabatista. No entanto, segundo Voltaire, não podemos ser otimistas
ao ponto de acreditarmos na beleza da vida sem a devida reflexão. Tiago foi
obrigado a ir à Lisboa com fins comerciais. Na viagem de navio sobreveio uma
grande tempestade na qual ceifou a vida daquele cristão fiel e lançou Cândido e
Pangloss novamente à própria sorte. Tiago numa ação altruísta salvou um dos
marinheiros da morte, porém a sua própria não conseguiu salvar: foi lançado no
mar bravio que o engoliu sem piedade. Cândido viu a cena e ficou chocado,
olhando seu benfeitor desaparecer para sempre.
Diante do exposto, qual a reflexão
que podemos extrair deste conto sobre o anabatista? Primeiro, terá Voltaire
percebido que o anabatismo demonstrava o perfil do cristão cuja vida estava
orientada pelas Escrituras? O apóstolo Paulo exorta os romanos à prática da
caridade (Rm 13:8-10) e a epístola de Tiago assevera à prática para confirmação
da fé (Tg 2:1-20). Segundo, nos momentos de angústia e aflição, Cândido teve
contato com pastores suíços dos quais não recebeu favor algum, antes, desprezo
e apatia; seria isto uma intenção de apontar a má conduta de algumas vertentes
religiosas cujo discurso enfatizava as Escrituras, mas que o cumprimento das
mesmas fora esquecido? Terceiro, Voltaire quis compará-lo à descrição do
verdadeiro seguidor de Cristo contida na epístola a Tiago, tornando isso
evidente devido a utilização do mesmo nome? Quarto, seria sua intenção
desabonar a Deus, porquanto apesar dos homens provocarem autoflagelo à raça existe
sempre alguém bem orientado disposto a ajudar? Quinto, seria por ironia que o
fazia tentando associá-lo ao pensamento leibniziano, julgando-o “o melhor de
todos os cristãos” e como conseqüência “o melhor de todos os homens”?
Essas são algumas questões que podem
fermentar nova discussão sobre o texto, mas retorno com uma das primeiras
afirmações, Tiago foi um personagem diferente de todos os demais contidos no
enredo. Enquanto a ira, a apatia, a discórdia, a avareza, a ambição, a discriminação,
a inveja, o perjúrio, a falsidade, entre outras, são encontradas nos
personagens do conto, Tiago é o único que carrega a pureza do Evangelho em toda
sua plenitude. Ao tratarmos do anabatista neste artigo, fazemos referência ao
movimento cujo fim era o retorno ao Primitivismo Cristão, àqueles que não
queriam viver nos ditames desta vida, mas segundo os propósitos do Cristo
bendito. Voltaire apresentou Tiago, o anabatista, devido à hegemonia católica que
impregnava nos seus seguidores a marca de únicos servos de Deus. No entanto, pela
crítica de Voltaire, o catolicismo não poderia reivindicar esse título, mas
pessoas simples que viviam quase que despercebidas na sua fé religiosa
despontavam com maior ímpeto para os valores do autêntico Cristianismo. Tiago é
representando como o verdadeiro cristão e nos ensina a viver o pleno
Cristianismo, ou seja, o Cristianismo prático.
Por Heládio Santos
Bacharel em Ciências Sociais
Especialista
em Teorias da Comunição e em Teologia Histórica e Dogmática
Referências
Voltaire.
Cândido. São Paulo: Martins Fontes, 2003.